DE OPERADOR DE COMPUTADOR A ANALISTA DO BANCO CENTRAL – A História de um Concurseiro – CAPÍTULO 2

O Breve alívio no Curso de Administração

Estávamos no ano de 1997, no mês de julho, quando passei no vestibular da Universidade Federal de Uberlândia pela segunda vez, aos 19 anos de idade. Eu não fui o primeiro nem o último a largar um curso de faculdade. Em cursos como Computação muitas turmas chegam ao último ano com cerca de metade dos alunos que se matricularam no primeiro semestre. Então, talvez não seja uma falha somente minha, não é?

Antes de me inscrever para Administração de Empresas no vestibular, cheguei a pensar em Geografia, matéria que sempre foi a minha preferida na escola, mas havia o receio de que este curso não me desse um retorno financeiro satisfatório. Eu não conseguia ver outro futuro em Geografia que não fosse o de professor. Administração me parecia um ponto exatamente no meio do caminho entre Computação e Geografia. Na verdade, hoje posso dizer que é o curso perfeito para quem não sabe o que quer fazer da vida.

E no primeiro semestre de Administração, me pareceu que a tragédia da computação não ia se repetir. Estudando no turno da noite e sem trabalhar, fui razoavelmente bem, tanto que um dos meus colegas de sala acabou até me contratando para ser estagiário em sua pequena empresa de seguros. Fiquei muito feliz com isso, pois seria meu primeiro emprego e naquela época eu já estava doido para começar a trabalhar. Mal sabia das consequências que o novo serviço viria a ter.

O combinado verbalmente pelo meu colega, agora meu chefe, foi que o expediente do estágio seria de meio período (que eu entendo como sendo quatro horas) e que a remuneração seria de dois salários mínimos, o que na hora de assinar o contrato de estágio virou seis horas de expediente e um salário mínimo e meio de remuneração. A situação na realidade acabou sendo ainda pior do que os termos do contrato. Era comum que eu saísse da empresa às sete horas da noite mesmo chegando às oito da manhã. Sair no horário combinado pelo contrato (duas horas da tarde) era sempre motivo de espanto por parte de meus colegas. Eu não devia, mas me importava com os olhares condenatórios e na prática acabei fazendo uma jornada de oito horas todos os dia.

Não vou dizer que foi um período horrível. Eu era até feliz naquela empresa, principalmente por que gostava dos colegas, mas nem preciso dizer que meu rendimento escolar começou a cair de novo e no segundo semestre do curso de Administração não escapei ileso, tomando minha primeira bomba naquele curso.

Fiquei nove meses naquele estágio, até que um dia cheguei de manhã, olhei para a pilha de serviço que tinha pra fazer, fiquei uns dez minutos olhando para o vazio, pensando na vida, até que me levantei, fui a meu colega de classe/chefe e disse que estava fora. Foi rápido e indolor.

Minha carreira de PM

Eu só voltaria a trabalhar um ano depois, no maior atacadista de Uberlândia. Antes disso faria meu primeiro concurso público, que considero um dos incidentes mais estranhos da minha trajetória profissional. Após ler o edital num jornal, inscrevi-me para o concurso da Polícia Militar, profissão que não tinha absolutamente nada a ver comigo. Tudo bem, confesso que até cheguei a tentar me convencer que conseguiria ser policial militar, afinal, o salário de quase mil reais era cerca de quatro vezes o que ganhava no estágio na empresa de seguros.

Como eu ainda tinha o Recall do vestibular para Ciência da Computação, feito dois anos antes, mesmo sem abrir um único livro, passei no concurso e até muito bem. A única diferença é que nos dois vestibulares que passei fui mal em redação, com textos cheio de ideias. Lembro que dessa vez, no dia da redação, prometi a mim mesmo que faria o texto mais vazio e inócuo que pudesse. O resultado foi que tirei uma das melhores notas em redação entre todos os candidatos (não estou bem lembrado, mas talvez tenha sido até a melhor).

Depois das provas, foram mais ou menos dois meses enrolando com exames de saúde e físicos, entre eles uma corrida de dois quilômetros, que foi um dos momentos mais dramáticos que já tive. Durante a corrida, quando meu baço ameaçou tentar suicídio eu literalmente pedi para que meu espírito fosse dar uma voltinha até que aquilo terminasse, para ser mais claro, tentava pensar em qualquer coisa que me fizesse esquecer da dor. Felizmente, todos, inclusive os quatro ou cinco que conseguiram o feito de chegar depois de mim, entre os trezentos candidatos, passaram no teste.

Mais uns dois meses depois, lá estava eu, no meio de uns 250 marmanjos, pronto para me tornar um policial militar. Eu, que costumava usar um tênis até vê-lo se despedaçando ,sem nunca lavá-lo, que cortava o cabelo somente quando as pessoas começavam a correr de mim na rua, que dizia para minha mãe que não arrumava a cama, pois iria desarrumá-la de novo à noite, que odiava com todas as forças acordar antes das nove da manhã, iria me tornar um milico.

Eu poderia até ter conseguido mudar meu jeito, mas quando um sargento disse que nós recrutas ficaríamos no quartel até às oito da noite, todos os dias, disse a ele que minha faculdade começava às sete e que teria que sair mais cedo. Ele então me respondeu dizendo que eu tinha que ter prioridades.

Não que eu estivesse muito bem na faculdade, mas como não estava trabalhando, também não me lembro de estar tão mal, mas foi o suficiente para pedir baixa exatamente no meu segundo dia de recruta. Pedi para ir embora do quartel no mesmo momento em que pedi a baixa. Era terça-feira e o sargento disse que se eu fosse embora seria preso. Teria que continuar no treinamento até sexta feira. Foi uma semana longa, mas sobrevivi. Na sexta, eu e mais uns quatro nerds que tiveram a mesma idéia fomos dispensados.

Trabalhando de Madrugada

Com o projeto Policia Militar fracassado, minha saída foi procurar emprego na iniciativa privada. No segundo semestre de 1999, eu estava fazendo algumas matérias do terceiro e do quarto período de Administração. Estava indo razoavelmente bem no curso. Mesmo passando as madrugadas acordado, não fazendo absolutamente nada que preste na frente de um computador, eu conseguia levar o curso com razoável decência. Mas em setembro daquele ano, após minha terceira entrevista para tentar entrar num grande atacadista de Uberlândia, fui contratado para a função de Operador de Computador (que eu chamava de Operador de Sistemas para parecer mais bonito). Iria ganhar 580 reais por mês (cerca de três salários mínimos da época) e mais 40% de adicional noturno para fazer exatamente a mesma coisa que fazia todos os dias de graça em casa, fuçar em computadores a madrugada toda.

De início eu realmente gostei da idéia de trabalhar de madrugada, e realmente não foi ruim. O problema foi o resto do meu dia. Quando não estava no atacadista, me tornava um semi-morto, e as bombas na faculdade vieram por atacado no final daquele semestre. No final do semestre seguinte vieram mais, e pior, bombas repetidas. Conclusão: acabei caindo num regime em que só poderia fazer duas matérias no próximo semestre.

Eu tinha então 22 anos e o clima estava começando a ficar meio pesado lá em casa. Meus pais, que tanto comemoraram minha aprovação no vestibular de Ciência da Computação, já não demonstravam mais tanta alegria com a minha pessoa. Quando caí no regime especial não tive coragem de contar para eles. Como só teria três dias de aula por semana, eles acabariam desconfiando. Então, na quarta-feira, dia que não havia horário da faculdade, eu pegava meus cadernos, colocava na mochila e ia pro cinema. Havia chegado a meu nível mais baixo como estudante.

Não pensem que estava feliz. Minha sensação é de que tudo estava dando errado. Meu relacionamento em casa não estava bom. Eu tinha vergonha da minha situação na faculdade e mal conseguia encarar meus colegas de curso. Não me lembro se foi nesse mesmo semestre ou no seguinte, mas acabei simplesmente parando de ir às aulas. Estava prestes a largar minha segunda faculdade e aceitando o fato de que somente fazendo geografia seria feliz. E se isso também não desse certo, desistiria para sempre do curso superior e aceitaria meu destino como operador de computador no atacadista.

Mas a vida dá voltas…

<<Ver o Capítulo Anterior / Confira o Próximo Capítulo>>


Esse sou eu, na época que trabalhava no atacadista

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.